A cefaleia (DOR DE CABEÇA) é um dos sintomas mais comuns que o ser humano padece, representando cerca de 10% de todas as consultas nas Unidades Básicas de Saúde1. Mais de 95% das pessoas em algum momento da vida tiveram, têm ou terão cefaleia. Mais de 200 condições clínicas2 cursam com cefaleias, que, contudo, podem agrupar-se em duas grandes modalidades: as primárias, devidas a tênues disfunções neuroquímicas cerebrais, e as secundárias ou “atribuídas a”, que são manifestações de moléstias cerebrais ou mesmo de outras partes do organismo, como cefaleia atribuída à doença vascular intracraniana, à meningite e à anóxia

Nas cefaleias primárias não se encontram moléstias estruturais subjacentes, possivelmente se devam a anormalidades neuroquímicas em circuitos cerebrais envolvidos na nocicepção e na antinocicepção. São de longe as mais frequentes. Suas formas mais comuns são migrânea ou enxaqueca e cefaleia do tipo tensional. 

Migrânea (enxaqueca) 

Trata-se de uma doença devido a uma disfunção de neurônios e dos vasos sanguíneos intra-cranianos. Tem um forte componente genético, isto é, o indivíduo herda uma instabilidade em circuitos aminérgicos cerebrais que o predispõe a sofrer crises de enxaqueca. Tais crises tipicamente duram de 4 a 72 horas. O sintoma capital é a cefaleia, que tipicamente se inicia em um dos lados da cabeça, tem caráter pulsátil, é intensa, muitas vezes fazendo com 

que a pessoa permaneça no leito. Piora com pequenos esforços, como subir um lance de escada. A cefaleia se associa à intolerância a luz (fotofobia), sons (fonofobia) e odores (osmofobia) e frequentemente se acompanha de náuseas ou mesmo vômitos. Exames físico e neurológico encontram-se sempre normais. Por ser uma moléstia recorrente, ocorre em ataques que se repetem uma a várias vezes por mês e, em alguns casos, na maioria dos dias. Nessa eventualidade, a moléstia se denomina migrânea crônica. Caso as crises ocorram em menos de 50% dos dias, a migrânea é chamada episódica. Esta é sua apresentação mais comum e seu manuseio é relativamente simples. 

A migrânea é altamente prevalente. No Brasil, em um período de um ano, cerca de 30milhões de pessoas sofrerão tais crises3. As mulheres são as maiores vítimas de enxaqueca, cerca de 20% delas padecem de enxaqueca no período de um ano e, ao longo da vida, tal cifra chega a 40%5. 

A enxaqueca acarreta, além de sofrimento, considerável ônus a seus padecedores e à sociedade. Estudos mostram que migranosos perdem o equivalente a 17 dias de trabalho/ano em razão de suas crises3, com consequente comprometimento de suas atividades profissionais, sociais, educacionais e conjugais. Para a Organização Mundial da Saúde, a migrânea está entre as 19 moléstias mais incapacitantes da humanidade e caso se considerem apenas as mulheres, aparece em 13º lugar4. 

A enxaqueca acomete o gênero feminino numa proporção de 3:1, é mais prevalente entre a terceira e a quinta década e 80% dos migranosos têm um familiar em  primeiro grau acometido. Entre os mais comuns fatores ambientais  desencadeadores da crise, pode-se citar estresse, falta ou excesso de sono, alterações climáticas e queda de estrogênio no período pré-menstrual. Alimentos podem deflagrar crises, porém seu papel costuma ser superestimado. 

De acordo com suas manifestações, a migrânea subdivide-se em dois subgrupos principais: migrânea sem aura, que corresponde a 75% dos casos, e migrânea com aura, em que a cefaleia se associa a sintomas neurológicos focais, os quais normalmente a precedem, podendo, contudo, acompanhá-la. 

A Sociedade Brasileira de Cefaleia estimula os médicos clínicos e ginecologistas a aprender mais sobre o manuseio da maioria dos casos, que, em geral, não é complexo. O foco principal serão 

Migrânea sem aura: diagnosticando de maneira fácil 

O diagnóstico de enxaqueca é em geral simples. Com apenas algumas perguntas, chega-se a um diagnóstico bastante provável em uma  pessoa que  não tenha sinais graves de doenças como febre, paralisias etc. Veja as perguntas da tabela 1. 

 

Tabela 1. Auxílio diagnóstico de enxaqueca 

 

Aspecto  A. Você já teve mais de cinco crises na vida? (  ) Sim; (  ) Não 

B. Suas crises duram de 4 a 72 horas? (  ) Sim; (  ) Não 

C. A cefaleia é (pelo menos duas das seguintes características): 

C1. pulsátil; 

C2. inicia-se de um lado da cabeça; 

C3. é moderada ou forte (prejudica ou faz interromper as atividades); 

C4. piora com pequenos esforços (abaixar-se, subir escadas). 

D. Durante a cefaleia, ocorre pelo menos um dos seguintes itens: 

D1. fotofobia e fonofobia; 

D2. náusea e/ou vômitos. 

 

Referências 

1. Bigal ME, Bordini CA, Speciali JG. Etiology and distribution of headaches  in two Brazilian primary care units. Headache. 2000;40:241-7. 

2. Subcomitê da Sociedade Internacional de Cefaleia. Tradução da Classificação Internacional das Cefaleias da Sociedade Internacional de Cefaleia. 2. ed. São Paulo: Segmento Farma, 2004. 

3. Bigal ME, Bigal JOM, Bordini CA, et al. Evaluation of the impact of migraine and episodic tension-type headache on the quality of life and performance of an University Student Population. Headache. 2001;41:710-9. 

4. Lipton RB, Bigal ME, Hamelsky S, et al. Wolff’s headache and other head pain. 8. ed. In: Silberstein SD, Lipton RD, Dodick DW (eds.). New York: Oxford University Press, 2008. p. 45-64. 

5. Queiroz LP, Peres MF, Piovesan EJ, et al. A nationwide population-based study of migraine in Brazil. Cephalalgia. 2009 Jun;29(6):642-9. 

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